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CREF2/RS em Revista: Frederico Guariglia fala sobre natação e Jogos do Rio
26/07/2016
Fonte: CREF2/RS em Revista

Há 13 anos no Grêmio Náutico União, Frederico Guariglia (CREF 003724-G/RS) está pronto para encarar a sua segunda Olimpíada como treinador. O técnico da nadadora Graciele Herrmann, uma das grandes revelações do esporte gaúcho na última década, nunca foi um atleta profissional, mas desde muito cedo se interessou pela água.

Às vésperas dos Jogos do Rio, Guariglia se baseia na sua vivência no esporte para contar como a natação evoluiu no Brasil, sobretudo nos últimos anos, e como é desgastante o dia a dia de quem trabalha com atletas olímpicos, que precisam chegar sempre ao limite físico e mental para conquistar uma medalha. A entrevista, que reproduzimos parcialmente abaixo, foi publicada na última edição do CREF2/RS em Revista sobre os Jogos Olímpicos e pode ser conferida na íntegra no link.

Como foi a seletiva para a Olimpíada do Rio?

A primeira seletiva foi realizada em dezembro do ano passado, em Santa Catarina, e a segunda em abril, na piscina onde vai ser disputada a prova, no Rio de Janeiro. Esta segunda, por ser a última e no mesmo local da competição principal, tinha um ambiente mais tenso. Por isto, joguei as fichas no ano passado e deu certo. A primeira foi um pouco mais tranquila e o tempo que a Graciele fez nessa oportunidade credenciou ela para participar da Olimpíada.

A eliminação do Cesar Cielo foi um dos assuntos mais comentados da seletiva.

Ao invés disso, acho que temos que ressaltar os outros dois bons atletas que temos, que nadaram na frente. O Cielo é um mito, medalha de ouro e recordista mundial, mas outros foram melhores desta vez. Claro que seria muito bom ter ele na equipe, mas acho que houve um exagero na cobertura midiática. O repórter, que de praxe entrevista o nadador depois da prova, só parou de falar quando ele começou a chorar. Acho que o foco deveria ser informar mais sobre os outros nadadores classificados para os Jogos. A natação não é um esporte de grande visibilidade e o Cielo não tem a obrigação de ir à frente da câmera para pedir desculpa. A comoção foi grande, mas não sei se a gente não exagera demais. Na TV, parece que a seletiva acabou girando só em torno do fracasso do Cielo, como se os outros atletas não existissem. Se ele não ganha, a gente perde tudo. Não é assim.

O ciclo de preparação deve ser muito desgastante.

Tem que ser. O treinamento é fracionado conforme os eventos da temporada. Tem um bloco de preparação para as competições de agora, depois para a Olimpíada e outro lá no fim do ano, para o Mundial de piscina curta. A preparação é desgastante, mas nada perdemos de uma competição para a outra. Não podemos associar o esporte de alto rendimento à promoção da saúde, porque o atleta precisa ir ao seu limite para avançar. A associação com o corpo humano é completamente diferente, a preparação para ir à Olimpíada machuca mesmo. Se não doer, é porque o atleta poderia dar um pouquinho mais ainda.

E para o treinador? Existe algum tipo de preparação?

O técnico precisa se habituar à sequência de provas, tem que se aperfeiçoar e buscar contato com os treinadores dos outros países. Eu acho que isso acrescenta muito à nossa vida profissional. O Comitê Olímpico Brasileiro realiza cursos para atletas e para treinadores. A Confederação, por outro lado, fez um planejamento para que a gente tenha uma boa participação nos Jogos e um bom convívio também. Não dá para o treinador achar que é melhor do que os outros só porque o seu atleta está competindo na Olimpíada.

Como foi participar da Olimpíada de Londres, em 2012?

Eu me lembro de cada segundo lá. O Brasil tinha um QG em Crystal Palace, que era um centro de treinamento de primeiro mundo. A maior parte da delegação ficou lá e treinamos nesse local também. Não foi aterrorizante participar de uma Olimpíada, a sensação foi, pelo contrário, muito boa. A nossa participação em Londres, apesar do 22º lugar da Graciele, acrescentou muito, porque o atleta percebe, numa competição dessas, que todos realmente se preparam para estar lá. Não é só você que treina. Todos estavam focados e com o mundo inteiro assistindo pela TV. Não é fácil nadar na Olimpíada, mas a gente precisa trabalhar a competição com naturalidade, mesmo que a participação neste tipo de evento seja algo que fique marcado para o resto da sua vida.

E quais são as suas expectativas com os Jogos do Brasil?

São positivas, desde que a espontaneidade aflore e que os atletas consigam nadar o que podem. Eu não acredito, sinceramente, que exista um peso maior pela competição ser no Brasil. Pelo contrário, eu acho que os atletas vão ser muito bem recebidos, vai ser bem mais caloroso. A gente sabe o que cada um vai entrar na piscina buscando, ninguém vai cobrar dos atletas brasileiros aquilo que eles não poderão dar. Acredito que chegaremos em um bom número de finais, mas não vamos ter muitas medalhas, vai ficar concentrado com quem ganhou em Londres, sem surpresas. O revezamento masculino 4x100m tem grandes chances e o número de mulheres participantes cresceu bastante também, o que acho bem interessante de destacar. Isto é muito positivo para a natação brasileira.

Que tipo de cuidado é preciso ter com o atleta fora das piscinas?

O atleta, via de regra, é uma pessoa difícil de se lidar. Às vezes, administrar é mais complicado do que passar treino. O que eles precisam entender, em primeiro lugar, é que eles estão na piscina trabalhando. Neste ponto, acho que a mentalidade do atleta brasileiro evoluiu, porque ele sabe agora que precisa ter comprometimento para atingir as metas. A gente ajuda os atletas com questões pessoais na medida do possível, mas sempre partindo do pressuposto de que se trata de uma relação profissional. Isto é algo que tem que se cuidar, porque muitos, por um motivo ou outro, acabam criando uma relação de dependência com o técnico. A gente não pode ser uma bengala para o atleta.

Como você avalia a evolução da natação no Brasil?

O esporte se especializou demais. Nessa última seletiva, o staff do União tinha biomecânico, preparador físico, psicólogo, médico e fisioterapeuta. O conceito de multidisciplinaridade é cada vez mais presente, para tentar suprir as necessidades dos atletas. O treino de quem nada 50 metros é diferente de quem nada 100 metros, assim por diante. A especificidade da prova está muito aguçada e há ainda o acréscimo da preparação física, que tinha um papel coadjuvante até alguns anos atrás, e passou a ser muito importante. A diferença a gente já consegue ver comparando o ciclo olímpico de Londres com o do Rio. A musculação convencional praticamente não é feita mais, é apenas um pequeno complemento. Hoje se faz arremesso olímpico, alguns dos seus derivados, e treinamento core muito forte. A preparação física tem, atualmente, um papel que não tinha no passado.

O dia a dia de um treinador olímpico é de muita pressão?

A gente trabalha em dois turnos, quatro vezes por semana, e em um turno, três vezes por semana. Além de estarmos envolvidos com os atletas de segunda a domingo, eles ainda fazem a preparação física, que ocorre de três a quatro vezes por semana. A rotina é desgastante para o treinador, mas eu gosto muito da profissão. Isto já me fez perder períodos importantes da minha vida, que foi acompanhar o crescimento do meu filho. Ele tem doze anos hoje e eu me lembro, depois de chegar de uma viagem longa, ter notado feições diferentes nele. Isso me deixava um pouco triste, assim como ter estado presente em apenas um Dia dos Pais até agora. O trabalho é pesado, é ruim ficar longe da família, mas eu curto demais. A sensação é mesmo contraditória, porque quando a gente volta já estamos querendo a próxima competição. O esporte é o que nos alimenta e é, às vezes, mais forte do que tudo. Acho isso estranho, mas não me vejo fazendo outra coisa.

Graciele Herrmann: a atleta de Frederico



Natural de Pelotas, Graciele Herrmann foi a primeira nadadora gaúcha a competir em uma Olimpíada, com apenas 22 anos de idade. Além de ter participado da prova de 50 metros livre nos Jogos de Londres, em 2012, a atleta do União disputou o Panamericano do México, em 2011, e foi a grande surpresa da competição, com duas medalhas de prata. Na Olimpíada do Rio, ela é uma entre os 30 atletas brasileiros que vão representar o país nas piscinas. “A gente tem que ir por etapas. Não vou aos Jogos só para fazer o meu tempo, mas para baixá-lo ainda mais e buscar uma vaga na semifinal. Depois, vou pensar em ir para a final e lá buscar a medalha”, contou a nadadora, em uma entrevista ao jornal Zero Hora. Graciele também tem no currículo uma medalha de bronze, conquistada em 2015 no Pan-americano de Toronto, e dois ouros no Sulamericano de 2014.

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